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Mensagem de texto

[...] – outro dia recebi uma mensagem falando “Ah, é na rua tal, número não sei o quê”... rapaz? à noite que eu não vou desapear do meu carro pra ver onde passageiro está esperando.

Era a explicativa do motorista que entrecortava minhas lembranças da noite anterior. Mas, especialmente hoje, parece que esse era o único dos quatro chamados que fiz que poderiam me levar ao trabalho. Chovia e estava ainda mais difícil tomar um ônibus. É assim que as pessoas comumente falam aqui, “tomar”, como se reduzisse a literariedade de dizer que irão “pegar o ônibus”.

– Essa foi a única viagem que eu cancelei até hoje, trabalhando em aplicativo. Já são oito viagens no total. Duas foram canceladas pelo próprio passageiro.

Não costumo andar com motoristas que tenham feito tão poucas corridas. Normalmente quem tem tão pouca experiência no aplicativo, demora muito a concluir o percurso - mais tarde, poderia comprovar minha teoria.

– Mas, pra você ter uma ideia, eu não entendo a ruindade de quem avalia mal o motorista que está levando o passageiro onde ele deseja.

Não sabia se deveria falar que sinto muito e garantir que eu iria avaliá-lo bem ou se considerava aquele desabafo, os pensamentos atordoados de um senhor, uma amistosa conversa. Foi inevitável pensar “esse é o maior tipo de maldade que ele consegue elencar numa manhã de segunda-feira: baixa avaliação”, e me senti numa série sobre realidade virtual. Me autocritiquei porque, diante de tantas ações, militâncias e problemas que eu poderia maquinar soluções, protestos e afins, e eu insistia em sordidez.

– Eu, particularmente, sempre dou cinco estrelas porque você não sabe como está sendo, né, a vida da pessoa.

Não era o que meu corpo desejava, estar ali naquele carro com ar condicionado fedendo a gás de cozinha. Há dias que, das horas marcadas com exatidão, meu relógio insistia em uma discussão quase descabida sobre eu ter menos razão do aquele com quem divido a vida, algumas atribulações e a cama, e minutos antes de sair de casa, dormia bem.

– É difícil, né minha filha, porque também hoje não dá pra saber quem é ou não bandido.

Ensaiei um discurso, mas não o declarei. Ao cabo, pra fechar um pacote completo de exaustão dos dias, me apareceu uma alergia e a cada dois centímetros de corpo, havia uma mancha. Talvez dengue. Talvez somatização. Acenei afirmativamente com a cabeça. Precisava me dar o prazer de lembrar do toque, do olhar que entregava-me o sentimento dele por mim. Era também uma forma de compreender cumplicidade.

– Não tenho esse tipo de preconceito, não. Mas às vezes acontece, né? Porque, igual, teve um cara que me deu nota zero. NOTA ZE-RO (enfatizou) porque eu dei “Bom dia” pra ele.

E no momento, agora escrevendo isso, parece que sou alguma coisa depravada, que recria cenas amorosas, ora proibidas. E uma absoluta esnobe que quase se desfez dos sentimentos do moço por luxúria. Que deseja a língua no pescoço como quem deseja uma xícara de café. Mas, no final das contas, todo mundo se pega mesmo pensando em quem deseja sexualmente. E ser impedida de pensar, de imaginar, e ao falhar tentando com que partes desconhecidas do meu cérebro recriassem o cheiro, até que eu caia no sono, permitem (obrigatoriamente) que eu passe várias vezes pelo mesmo frame: a entrada no quarto, o carinho no cabelo, o riso no canto da boca e o beijo na ponta do nariz.

– Então toda vez que alguém entra aqui, eu espero ver como ela vai ser. Esses anos todos que eu dirijo, sempre tem um engraçadinho atrás do volante, tá todo mundo estressado demais. É aquelas coisas que seu vô deve já ter dito, “Tem que ter paciência”.

“Diz não, moço”, nem quis dizer e, junto a tudo o que eu pensava, pensei também e disse “É verdade” e mais do que depressa, me vi na noite anterior, correndo de volta pra cama como quem chega rápido para o namorado e diz “desculpa ter me levantado na hora que beijou meu pescoço, eu precisava muito fazer xixi”; entra no quarto, carinho no cabelo, riso na boca, beijo na ponta do nariz; na minha cabeça eu me via saindo do meu aconchego e justificando a minha possível abdução. É como se, lá no interior da minha mente, aquilo tudo estivesse acontecendo de novo e ter minha sequência filmica da vida interrompida por um quase monólogo, faz com que o meu eu que está revivendo, seja sugado para a realidade no meio da Av. 85. E penso a mente do eu que está comigo, como que ermo, olhando ao redor buscando resposta para o meu sumiço.

– Mas é capaz de hoje não chover. Essa corrida sua tá até barata pra um lugar tão longe.

Riso, beijo novamente no meu pescoço, como se não tivesse feito isso segundos atrás,

houve um acidente no trânsito.
Isali

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