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Vida cuspida



Não sei se digo, "é assim", ou "foi assim". Talvez eu não tenha sido um sopro de vida.
 Fui seguida, numa rua até movimentada, enquanto ia para a escola. 12 anos. Nunca mais passei por aquela rua. Aos 13, ouvi "elogios" de um cara na rua em que me refugiei do primeiro. Mudei meu caminho. Quando fiz 14 anos já não passava por três possíveis caminhos, mudei sempre pra fugir de homens. Ouvia: "Você passa tempo demais na rua, e ficar um pouco mais tarde é chamar cantadas!". Óbvio, não dava reclusa o tempo todo. Todas as vezes tinha ainda que isso me ocorreu havia no céu a luz do dia, e no chão o calor do Sol.
 Então quando fiz 15 anos, conseguia andar mais rápido, porque treinei a mim mesma não ficar muito tempo fora de casa. Nunca consegui descobrir o que era andar, tranquilamente, pelas vias, sem me preocupar com homens afoitos. Nada contra homens. Mas sempre me incomodou ser observada como um produto a ser adquirido, ou até roubado. Pior ainda ROUBADO! Já me preocupara o fato de poder - já tendo sido - assaltada, mas o que mais me amedrontava era ser violada.
 Com 16, já andava desacompanhada em ônibus, senti alguém se encostando de maneira diferente em mim. Não era uma mulher. Senti que não era. Senti nojo, e desci antes do meu lugar comum. Vi então uma face muito repugnante, que até hoje me daria ânsia. Não ando mais naquela linha, ainda mais quando percebo que o horário é propício para que o carro lote. 19 anos, fiz. Desejei não tê-lo feito. Aconteceu muito além de elogios, fui "afirmada" de que mulheres gostavam de ser elogiadas, desejadas. Nunca, em todo meu tempo de vida, me senti bonita, atraente, gostosa... E nenhum galanteio machista me fez crer nisso.
 Voltando ao foco, talvez uma mensagem póstuma, esclareça o que realmente ocorreu: Fui fraca. Fraca pois não consegui superar meu nojo de mim e de ter sido forçada a tal. Aquilo ia me deixar "livre" - como ele mesmo me disse. Me deixar livre para eu ter consciência de todas deveriam aceitar que o "macho" é quem manda. Que é o macho que fica por cima - e isso não foi no sentido conotativo. Foi realmente no sentido de pisar. Que ia me livrar para que eu pudesse deixar outros homens felizes, com a minha "alegria".
 O problema, além da vergonha que senti, e da dor, foi minha cara ralada. Não esconderia nem que eu quisesse. Eu lutei até quando pude, até que fui derrubada no chão e agredida - primeiro - fisicamente. Um chute 38 em minha barriga. Já ouvi que homem de pés pequenos não são homens. Aquele não foi um bom jeito de provar que ele o era. Ao chegar em casa minha mãe logo percebeu. Ficou aterrorizada e tomada de ódio. Ligou para a polícia, disseram que não tinham nada a fazer, ela rebateu dizendo que eu me recordava da cara dele. Responderam que são muitos, nunca o encontrariam.
 Ela lutou, inutilmente, como eu fiz, para que eles o encontrassem. Lutou para dar queixa. Quando percebi, ouvia muito longe o som da primeira voz que ouvi nesse mundo. Quando ela percebeu, eu já não estava nesse mundo.

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