Pular para o conteúdo principal

Imagem



 Foi como se o meu eu espelhado fosse outro.
 De algum modo era, porque aquela não era eu.
 É clichê dizer que a imagem se mexia sem que eu fizesse qualquer movimento.
 É também clichê dizer que quando eu fui, ela ficou.
 Ficou e se apossou da vida que deveria ser minha.
 Como gêmea, mesma cara. Mesmo corpo. Mesmo andar.
 Mas ao contrário de gêmeos - que têm vidas independentes - ela dependia da minha imagem.

 Minha imagem, com outra vida.
 Cansou-se de mim.
 De estar limitada a mim.
 Preferiu tingir os cabelos de vermelho.
 Me atingia, e eu não me refletia.
 Unhas sempre bem feitas e pretas.

 Não se importava com mais nada, e eu já não aparecia para mim.
 Foi como ser vampira.
 Como se eu tivesse atrapalhado minha própria vida.
 Vida dela, na realidade.
 Eu a suguei. A extorqui a possibilidade de ela ser vida, não apenas imagem.
 Minha vida estava virada.
 Virou, porque reconheciam a ela, e eu era a estranha.

 Foi difícil entender, mas ela se livrou da atadura de vidro e alumínio.
 Não conseguia entender como que, de relance, me via de maneira virtual.
 Inexplicável.
 Agora eu era a própria imagem.
 Meu cabelo agora era dela, minha família era dela.
 Eu estava aprisionada no espelho.

 Difícil mesmo é que ela se acomodou à ideia de só aparecer quando era refletida.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mudança

Ia só copiar um antigo
Mas já pertence a um outro eu
Quem eu sou agora
Nem aquela e nem você conhecem mais
Desconstrução diária
Noite instantânea
Passam-se semanas e outro mês
A colheita de reserva ora é destino ora é consequência

Loretha Torchia

Coerência

O pé quem moveu fui eu
Foi meu
O beijo que avançou
Os km quem contou fui eu
Foi meu
O suspiro que enterrou
O convite pro Samba foi meu
Fui eu

Ora, se tudo aqui se resumi assim
Deveria me importar com quem?
De quem esperar o desfecho?
Não sendo assim seria incoerente

Loretha Torchia


metáforas para dizer Tempo

demorou o suficiente para eu notar que a luz da botoeira do elevador se apagava à medida em que ele chegava ao meu andar, e meu lixo se decompunha, apodrecia e mal-cheirava, como a velha que, no dia anterior, contava como Casca de ovo é bom pra tudo, coloco até na comida do meu neto no ponto de ônibus. No apartamento vizinho, ouvia O tempo voa decerto de alguém que também muito viveu. Naqueles vinte minutos em que esperava, estava evidente que o tempo voava na velocidade de uma bicicleta sem rodas, guinchada por um motorista cego. Enquanto ouvia o som do maquinário velho recém-reformado do elevador do prédio antigo, agora me novo, dei-me conta de que as contas que não fiz ainda seriam, como já eram antes de chegar, o desfecho da minha vida a ensinar, como a velha, O tempo não voa porque nem pernas têm! Para saber que até chegar ao aterro sanitário, meu lixo já poderia ter criado novos organismos para ser capaz de bem alimentar como de matar, quem pairava por lá tanto quanto urubus. a vida que…