Pular para o conteúdo principal

metáforas para dizer Tempo

demorou o suficiente para eu notar que a luz da botoeira do elevador se apagava à medida em que ele chegava ao meu andar, e meu lixo se decompunha, apodrecia e mal-cheirava, como a velha que, no dia anterior, contava como
Casca de ovo é bom pra tudo, coloco até na comida do meu neto
no ponto de ônibus.
No apartamento vizinho, ouvia
O tempo voa
decerto de alguém que também muito viveu. Naqueles vinte minutos em que esperava, estava evidente que o tempo voava na velocidade de uma bicicleta sem rodas, guinchada por um motorista cego. Enquanto ouvia o som do maquinário velho recém-reformado do elevador do prédio antigo, agora me novo, dei-me conta de que as contas que não fiz ainda seriam, como já eram antes de chegar, o desfecho da minha vida a ensinar, como a velha,
O tempo não voa porque nem pernas têm!
Para saber que até chegar ao aterro sanitário, meu lixo já poderia ter criado novos organismos para ser capaz de bem alimentar como de matar, quem pairava por lá tanto quanto urubus.
a vida que vivia, que me diziam ser eu, não começou do início porque de início, poderia ser qualquer coisa
E eu, quem me via sabia, me era, donde passei a agradecer não por cada pesadelo que tive mas pela noite que não sofri de insônia. Bem como também não produzi à noite e dos sexos que tive quando deveria trabalhar ou descansar para.
Meu lixo, que não só era meu como também era eu, se misturou até àqueles de quem seriam e não-seriam, como se misturou também àqueles de quem já não eram. Não eram por não serem e nem nunca terem sido e também por terem deixado de ser. Toda aquela coisa de conjugação verbal nunca aprendida e aos pedaços do algodão, colhido pelas mãozinhas da menina que nunca terá as unhas feitas "a não ser que se esforce para sair de tal condição"
e prove a existência da meritocracia,
muito brancos sujos de vermelho-sangue do meu esmalte. Nos vinte minutos que se passaram, meus flancos voltaram a doer e eu a me perguntar se aquilo era, de novo, a Infecção urinária. Agora, em direção à lixeira, penso que talvez fosse melhor ingerir mais líquidos sem carboidratos, açúcares e sódio, para que um dia eu não venha a precisar de um parente que se disponibilize a me doar um rim, esquerdo ou direito, para que não me julguem cega por não ter me tratado quando tinha a chance de ter me prevenido. Isto, profilaxia.

(Isali, 2017 ou antes)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mudança

Ia só copiar um antigo Mas já pertence a um outro eu Quem eu sou agora Nem aquela e nem você conhecem mais Desconstrução diária Noite instantânea Passam-se semanas e outro mês A colheita de reserva ora é destino ora é consequência Loretha Torchia

sob as luzes que tentam apagar a lua

aqui da sacada do apartamento por hora meu vejo a lua e ouço os sons indevidos da rua. um cachorro late ao fundo um grilo ou os cabos de tensão dos postes aqui na frente chiam parecido. vejo a sombra do meu gato que vê em mim tristeza ou encontro com quem sou. agora uma luz menor que a lua brilha abaixo dela chamo de estrela sabendo que possivelmente erro por ser um planeta cujo nome humano desconheço. faço coisas que não esperava e não queria escondo por vergonha e continuo por teimosia vício quem sabe. é difícil demais explicar pro bicho que triste não espero morrer, mas a conversa com Ela vem vez e outra. acabei de lavar o rosto com água apenas e banho eu tomo logo, mas minhas sobrancelhas ainda estão molhadas. estou com quem desejo e sei do colo que quero agora a um oceano distante. anseio o choro que sempre veio e momentaneamente se ausenta porque me ocupo de mim. isali 05/07/2020